quinta-feira, novembro 25, 2004

determinado (II)

Espalhou a alva espuma sobre a cara húmida; acariciou a face ao fazê-lo, como que num ritual que era obrigado a cumprir. Pegou na lâmina e começou, como de costume, a desfazer a barba a partir do canto inferior esquerdo do pescoço no sentido de baixo para cima. Era uma carícia "azêda" mas que sabia bem. No final, meteu outra vez a cabeça debaixo da água fria e sentiu o gelo refrescar-lhe a ardência facial; pegou no bálsamo e untou a cara e o pescoço; o cheiro não é activo e até é bastante agradável porque para além de refrescar torna a pele macia (naquele momento, claro). Com uma toalha secou o cabelo esfregando-o fortemente e penteou-se de seguida num ritual também demasiadamente frustrante porque sempre igual; desejava ter outro tipo de penteado mas o raio do cabelo não lho permitia. Sorriu novamente e mais uma vez piscou um olho a ele mesmo.
Seguiu para o quarto. Despiu as calças de pijama e vestiu-se a rigor para enfrentar o vento norte frio que soprava lá fora. Eram oito e meia e o sol tinha nascido havia ainda pouco tempo. Meteu o nariz de fora e aspirou a névoa matinal. Fresca, suave e pura. Tentou olhar o sol mas logo retirou o olhar. Meteu-se a caminho. Sentia uma paz estranha. Parecia a primeira vez que fazia aquilo. Ou seria mesmo a primeira vez? Caminhou forte no sentido sul para norte, tal como daquela vez em que se meteu à chuva e a sentiu no corpo refrescando-lhe a alma. Desta vez não sentiu essa necessidade; desta vez a vontade era apenas a de usufruir de uma manhã fria de sol neste inverno que findara e nesta primavera que acabara de começar.
Caminhou apenas com largas e longas passadas até sentir o corpo aquecer e o ar frio começar a encher de calor os seus pulmões.Respirava fundo e compassadamente. Ao fim da longa rua a subir, parou. Encostou-se a um muro e descansou. Olhou para dentro da sua alma e declaradamente entendeu a mensagem: tinha mudado, pura e simplesmente estava mudado. Tivera de caminhar noutro sentido. Iniciara, pois, o novo percurso. Sentiu-se bem.
Sorriu. Sentia-se feliz.

3 comentários:

Vera Cymbron disse...

Adorei a forma que dás ás palavras...
O cansaço é como os óculos de sol que esqueci-me em casa, é a minha defesa para o que há lá fora...
Voltarei...
Fica bem

Seila disse...

:)

Gilda disse...

Eu como não tenho barba, sinto-me feliz e muito leve cada vez que corto o cabelo... bem curtinho!