terça-feira, novembro 09, 2004

...Ensaio sobre a solidão

......Depressa me canso de mim.
Olho à minha volta e só vejo recordações. Uma terna claridade (ou será obscuridade?) invade o meu quarto e me rodeia de mansinho. Já reparei várias vezes: vem sempre acompanhada do silêncio! Nunca soube o porquê de tal evento. É uma luz difusa, lenta, como que surgindo a medo e com ela, um opaco silêncio; algo que nada traz a não ser paz. Mas trazê-la já é bom. E é nesses momentos que me sinto só. E sabem porquê? Porque não tenho com quem partilhar esse momento! Algo que sempre desejei fazer um dia na minha vida: partilhar a minha solidão. Dizer a alguém: “Vês? Estás a ouvir? A minha solidão está aqui, é isto que vive aqui comigo. Entendes?” Mas nunca consegui e nunca o consegui porque nos momentos em que a solidão me visita eu nunca estou acompanhado; engano, estar acompanhado estou mas apenas de mim mesmo e dessa luz e desse silêncio. Já somos três. Estendo-me então no leito dessa luz (ou será escuridão?) e deixo-me levar pelo barulho do silêncio que me invade. Nunca é tarde para experimentar novas sensações, só que esta é já demasiadamente minha conhecida e então apenas nos olhamos e nos aceitamos mutuamente. Nada mais fazemos senão partilhar aquele momento, uma partilha a três numa solidão solitária de um só. Estendido nela e com o silêncio deitado a meu lado, olhamos o tecto que lentamente se separa de nós em tons de cinzentos cada vez mais escuros; passo os braços pelo silêncio e aperto-o de encontro ao meu peito. Sinto o seu respirar lento e compassado; é um som simpático, eu sei, mas ao mesmo tempo ousado na medida em que invade o som do bater do meu coração; e o silêncio deixa de ser silêncio para ser um baque surdo ritmado aqui, ao meu lado, deitado. No entanto, continuo abraçado a ele e ele sente-se bem porque acarinhado. É um abraço puro mas forte; ingénuo mas apaixonado. É apenas um abraço de silêncio compartilhado num leito de claridade a escurecer em lentos tons que tem o anoitecer. Porém, já quando o tecto se separa de nós e nos abandona entregues que ficámos à luz das trevas que entretanto nos envolveram, o silêncio se aperta contra mim e me possui. Penetra-me fundo e a respiração torna-se ofegante, sufocante.
O que até então era um prazer compartilhado passa a ser dor e algo que corrompe. Penetra-me cada vez mais fundo e a dor aumenta. O bater e o som do meu coração ultrapassa o silêncio que entretanto se esvai num orgasmo de sons delirantes de espasmos gigantes que se avolumam dentro de mim. O tecto já não existe, a obscuridade ainda persiste com mais intensidade. É um estar sem vida, sem morte e sem idade. Apenas habita em mim numa eterna cumplicidade. Respiro o espaço que me rodeia. E a escuridão cai sobre tudo e me envolve como uma teia. Já tenho mais uma companhia. O doce sono vem de mansinho amparar meu corpo e cobre-o com carinho. Adormeço lento, extenuado de tanta amargura, numa vã procura do próximo amanhecer que de novo me vai trazer o fim de tarde, neste terno ciclo de amor e ódio em que espero pela eternidade.

4 comentários:

Anónimo disse...

É por isto, por estas palavras que do fundo de ti se estendem até às nossas solidões, que nos fazem sentir acompanhados, que nos alentam mesmo quando nos chegam tristes e desalentadas, que o teu cantinho nos é tão precioso. Bem hajas, Quim.
beijo grande
Cinda

Anónimo disse...

Quim, neste momento tenho tanto para te dizer sobre o texto que escreveste que simplesmente não sou capaz... tocaste-me numa ferida muito profunda... descreveste a solidão de um modo tão perfeito, tão romântico que me comoveu profundamente. Tens uma linda alma! Um abraço muito, mas muito apertado...

Teresa (zen)

Fátima Santos disse...

este texto é lindo e fiquei com a sensação de já o ter lido ou algo de muito muito parecido...onde? ou não? que interessa senão que agora é lindo igual ao tal que sequer sei se era! Beijinho

Anónimo disse...

betania comenta:
A solidão toca a todos, mais tarde ou mais cedo, todos
temos que conviver com os longos silêncios...mas querido
quim, tenta sair um pouco da tua toca, faz umas incursões pelas "florestas"...afinal não és tu um LOBO?

Aparece no betanices. Não tem a qualidade que tu aprecias mas tem sempre um aconchego e um carinho.

Beijinhos