terça-feira, novembro 16, 2004

identidade

Vagueio o meu corpo por entre o cimento da cidade; não lhe encontro identidade; não sei onde estou. Apenas vou. Saí há pouco de mais um Bar. Que bebi desta vez? Não sei mas também não interessa. O telemóvel continua mudo e nem uma mensagem tem e eu não tenho tempo para escrever; só tenho tempo para esquecer e também penso que já não sei o que dizer. Procuro as palavras mas parece que as perdi. Perdi as palavras; ando atrás delas; perderam-se no sótão da minha memória e a chave do baú há muito que já lá não mora. Busco incessantemente as letras para compor palavras mas não as encontro e desisto; mas, desisto de quê? Não sei. Desisto. Também se vive para desistir; não vivemos somente para insistir. Mas as letras e as palavras são fugidias, escorregadias, lembram momentos que já não encontro; são perdas deixadas (ou deitadas?) ao vento, lamento.
Cruzo-me com as pessoas e sinto-lhes o odor; interessante, mesmo com um pouco mais de álcool, eu consigo sentir o cheiro: sinto os perfumes, a transpiração, um cheiro a urina naquela esquina, o cheiro a fritos que vem daquele restaurante rasca; um pequeno aroma a rosas naquele varandim misturado com o perfume do tabaco. Ouço também os ruídos: os carros, as motorizadas, as conversas mudas, as tosses, o grito, o berro, a sirene do carro da polícia, a mulher que chama um cliente ali à frente.
Mas somente vejo os meus pés caminhando no piso molhado da última chuva que caiu. O sol fugiu cedo, deitou-se ainda ia o dia a meio; deixou-me só. Já não sei onde deixei o carro. Mas, para que o procuro se sei de antemão que ainda vou parar num reles lugar para beber mais um gole? Sinto-me mole. Sem forças e empurro as pernas para que o corpo não fique parado. Está frio neste lado de mim. Não sei como está o tempo desse lado, excepto que de vez em quando algumas gotas de chuva me vão molhando. Vagueio o meu corpo por entre o cimento da cidade e continuo a não lhe encontrar a sua identidade.
Onde estou? Que faço aqui? Para onde vou?

7 comentários:

ognid disse...

Pergunto-me, como outros já fizeram, se é apenas literatura ou expressão de algo real e pessoal... abraço.

Anónimo disse...

Repito a questão de ontem e reforço as palavras, de hoje, do 'ongid' - literatura ou estado de alma?
Começo a ficar hesitante, perante as duas hipóteses. E como eu, certamente, outras pessoas que passam por aqui.
Fala, Quim... ;)
DespenteadaMental

Anónimo disse...

Levanta, homem! Sacode a poeira dos ombros. Procura um espelho e olha teu próprio rosto... procura com carinho, procura com ternura ou, então, apenas com paciência - a resposta está lá. A presença está lá. O vazio não existe! Nem que a gente o queira!

Anónimo disse...

Repetindo, aqui:
- Viva, Quim!!! Fiquei esclarecida e mais tranquila. É verdade que o que escrevemos, de algum modo, residiu ou reside em nós. O 'local' que ocupou ou ocupa é que acaba por dar-lhe o estatuto de pura criação ou de vivência relatada.
Espero que o que houve de vivência, não volte a ocorrer, mas, se as circunstâncias voltarem a reunir-se, desejo que encontres na escrita um bom espanta-mágoas e, então, se transforme em pura criação literária. Um grande abraço.

Anónimo disse...

Pois!... Esqueci-me de 'assinar'... ;)
DespenteadaMental

Seila disse...

ai Quim! ai Quim! que belo este deambular pelos nossos recantos! despejar a garrafa toda na garganta! entrar em todos os bares!abrir todas as portas! andar aos encontrões com as ruas e os becos, os balcões e os odores! embebedar-se de si! embriagar-se de vida! e estontear de amores e dor e... no fim (será?!) ficar a olhar...para dentro de si e a perguntar quem sou de onde venho para onde vou!!! e voltar a percorrer, sorrindo, os becos, as ruas os cheiros, os corpos de todas as criaturas...num hino ao Criador e à Vida toda! ai Quim! que me deu pra falar de mim lendo a tua prosa e vendo ali abaixo aquela verdura viva em branco muito alvo e nela a vida inteira toda!!! Obrigada e perdoa!

A CÔR DOS MEUS SERES disse...

Odores, cheiros, perfumes...
relembro um livro maravilhoso que li.
Bonita música esta que se sente hoje por aqui.

luisa