segunda-feira, novembro 15, 2004

frio

Tenho frio, tenho mesmo muito frio.
Sinto um arrepio dentro de mim que me faz encolher a alma; dobro-me sobre mim mesmo e procuro a razão do frio que sinto; sinto-me cheio de um vazio que se instala no meu cérebro e deste passa para o meu ser. Sinto-me entorpecer e as pernas dobram-se e enregelam. O frio que sinto faz-me tremer; não vejo sol dentro de mim e a lua passou já muito ao largo e não deixou rastos. As estrelas estão longe e não me iluminam o suficiente para aquecer o meu coração. É tudo em vão. Todo o esforço que faço para me manter à superfície ainda me magoa mais porque as forças me abandonam e o corpo rejeita energias que gasto nesta viagem. E é apenas a minha imagem. Mas olho para lá e não vejo nada que me faça regressar. E desejo cada vez mais sair, fugir mesmo sem saber para onde ir; não é dilema não saber o que aí vem; sabe-se que se está a ir nessa direcção e deixamo-nos ir como folha perdida nas águas turbulentas de uma sarjeta suja de pó e vazia também de tudo. Deito-me dentro de mim e adormeço no meu sonho sem dormir; é um sonho acordado de tão cansado que nem o sono sossega e não me dá trégua.
Tenho frio, tenho muito frio.
Sinto um arrepio de novo e mais uma vez me encolho e olho para dentro do copo que tenho na mão; é um copo vazio como eu e também está frio; peço a alguém que o encha de novo e dizem-me que não, que já bebi demasiado; mas eu sei que não, ainda consigo entender o que me é dito e porque razão ouço este imenso grito.
Tenho frio, tenho muito frio.
Saio num tropeço dum trôpego andar. Passo pelo espelho e alguém do lado de lá olha para mim e sorri; é alguém que eu já conheci, alguém que já esteve aqui comigo, dentro de mim; nunca mais o vi; por onde andará? No entanto, foi simpático, acompanhou-me até à saída; não o vi mais; não havia mais espelhos naquela sala daquele bar. Abri a porta de par em par. Respirei o ar frio da noite ainda mais quente do que o frio que eu sentia dentro de mim. Olhei o mar que se estendia para lá daquelas escadas que desciam para ele, ele que me esperava depois do abismo; olhei-o e ele riu-se numa risada tremenda que me fez encolher e de novo ver que já nada estava ali a fazer. Preciso de dormir, mas um sono que jamais termine; preciso de dormir e afinal o carro está ainda ali; é aquele preto; tem aros prateados nos faróis mas não tem luz, estão apagados como eu. A chave está na minha mão e abrir a porta não custa; já nada me assusta porque o frio me tira a percepção da realidade; tenho apenas uma vontade, dormir, deixar-me ir e não saber nem como nem para onde.
Tenho frio, tenho muito frio.

6 comentários:

Å®t_Øf_£övë disse...

Andei a procurar viver as ultimas noites, daí a minha ausência, mas voltei,pelo menos por uma semana.
Lembras-te Da Ultima Noite?Vou procurar recordá-las.
Boa semana,e que não faça muito frio.
Abraço.

Anónimo disse...

Um texto lindo, como sempre, mas fiquei triste. Deixo-te um abraço de urso e um beijinho
Cinda

ognid disse...

Então Quim, que posts tão negros que tens vindo a editar! Um abraço amigo para ver se esse frio se vai embora.

Anónimo disse...

Olá, Quim. Se o texto 'Frio' é pura criação literária, resta-me parabenizar-te; se é a expressão do que te vai na alma, então, tenho de incitar-te a mudar de ares, a quebrar a rotina, a fazer qualquer coisa que te arranque à tristeza em que tens andado, ultimamente.
Entretanto, fico-me pela 1ª hipótese - criação literária - ;)
DespenteadaMental

Blue C. disse...

Andas muito triste ou é escrita pura? Também tenho frio... Beijinho muito grande.

Alexandre Narciso disse...

Um texto soberbamente escrito. Parabéns Joaquim!!! Está mesmo mto bom. Como já aqui foi dito, espero que seja somente escrita e que a tristeza n habite em ti.
Um Abraço