sábado, novembro 20, 2004

uma simples carta

A carta que te escrevo aqui e agora é o que "eu" sinto e penso da vida e não "serve" para todos; não há respostas definitivas e únicas para todos nós; vivemos num mundo de desafectos em vez de vivermos num de afectos; vivemos num mundo onde o sentirmo-nos bem com a nossa própria identidade é já tão dificil que usamos estas identidades "falsas" para podermos falar e ouvir. Já nos falta a "coragem" de enfrentarmos os outros, de olharmos os olhos uns dos outros e dizermos a quem estiver na nossa frente o que sentimos, o que pensamos, o que queremos, o que temos, o que podemos ser e, principalmente, o que podemos dar. A vida já vai longa para mim e já vivi muito e quase tudo o que um homem pode viver; passei de tudo um pouco e os anos foram-me tornando "duro" e um pouco "sóbrio" perante as bebedeiras da vida. A vida não é fácil e tudo o que a vida nos dá é pouco porque queremos sempre mais e melhor; passamos a vida a lutar por um lugar ao sol e esquecemos o quanto bom é refrescarmo-nos numa sombra.
Passamos o tempo a querer, passamos o tempo a desejar, passamos o tempo a ter, a possuir, a querer ter ainda mais.
E esquecemo-nos de dar!
E, um dia, ficamos de mãos vazias e ficamos sem nada e lamentamos termos ficado sem tudo o que haviamos tido; que desgraça enorme; perdi tudo; perdi os bens; perdi a namorada; perdi os filhos; perdi a mulher; tanto amor perdido! Tudo o que tinhamos se foi. E passamos a ser uns eternos infelizes!...
Errado!...
Nunca tivemos nada! Porque não somos donos de nada! Nada temos! Nada possuimos! Nada é nosso! Só dando é possivel ser feliz! Desejar tudo de bom para o outro! Querer que a mulher que pensava ter "perdido" esteja feliz agora mesmo sem ser a meu lado! Darmo-nos aos outros de todas as formas, de todas as maneiras. Não pretender ser amados. Amar somente. A felicidade está em amar, tão somente em amar e sentir que amar é estar feliz consigo mesmo.
Amar sem posse nem destino. Amar incondicionalmente.
Não chorar sobretudo porque é preferivel sorrir e mesmo que por dentro a alma se parta aos bocadinhos que nos reste um sorriso nos lábios para dar aos outros. Foi isso que aprendi ao fim de muitos anos. Não fui, não sou nem quero ser dono do que quer que seja. Quero olhar e desejar que todos estejam melhor do que eu. Escolho o melhor para ti. Ao fazer isto faço-o com alegria, com gosto e sou feliz!
É esta a resposta: não há caminhos para a felicidade; esta, é o caminho. Não interessa que caminhos havemos de percorrer, o que interessa é caminhar com a certeza de que "escolher" o melhor para o outro é a base do meu bem estar. Sentir que com essa "escolha" eu estou a caminhar e não à procura do caminho.
Estas palavras não "servem" para todos, eu sei. Mas não sei outras. Tudo o que possas ler nos meus escritos são uma mistura de credulidade e de incredulidade; são uma mistura de fé e de raiva; são uma mistura de sim e de não. Pela simples razão que precisamos dessa "balança" para o nosso equilíbrio. Mas, o cerne da questão está lá, nas entrelinhas e estas são as que acabo de te escrever.
Não sei se era "isto" que querias ouvir, se era esta a "mão" que precisavas; acredita que é a única que tenho e dei-te o que tinha: tempo, palavras e um desejo firme de felicidade...
E, para já, escolho para ti um sorriso.

7 comentários:

wind disse...
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ognid disse...

E já dás muito Quim... dás uma filosofia de vida de alguém bom :) eu subscrevo parte do que escreves mas há outras que não posso... não consigo ser tipo JC, dar a outra face. Abraço.

Noel Santa Rosa disse...

Como eu te entendo!
É tão difícil dar tudo sem nada pedir. Tão difícil viver sem o sentido da posse, despirmo-nos das coisas materiais, libertarmo-nos das grilhetas das responsabilidadesinhas que a sociedade nos insiste em impor.
Mas é preciso ter a noção da nossa real dimensão para o fazer e conseguir mesmo assim viver no meio deste mundinho materialista e mesquinho.
Beijos e continua a escrver que eu gosto muito de te ler.

JB disse...

Belas palavras, as tuas. É difícil viver, porque estamos sempre a querer Conquistar, desde os primórdios da nossa condição como homo sapiens. Damos, talvez, na medida em que isso tem alguma utilidade para nós próprios. É provável que a espécie animal que nos suceda possa saber viver em perfeita cooperação. Dando.

Seila disse...

apetece-me dizer Adoro-te e disse! sabes que estive para republicar este escrito no dia do aniversário do blog!sabes...tu sabes!Um grande abraço e o som inconfundível do sorriso e do silêncio!

Aran disse...

Sempre gostei desse teu jeito... um beijinho e inté...

Ana disse...

A tua carta resume aquilo que todos devíamos pensar. Na realidade nada é nosso...nem os bens materiais, nem o mundo em que vivemos, e muito menos as pessoas, mesmo aquelas de quem gostamos.Mas como evitar o sofrimento quando o pouco que nos alegrava se afasta? Quando a esperança de um ombro amigo se perde? Como conseguir continuar a dar quando estamos vazios de sonhos?
Admiro-te! Um beijo.