domingo, novembro 28, 2004

viagem


"...Eram extremamente apelativos; estavam ali à minha disposição; em cima da mesinha de cabeceira. Era uma caixinha escura que ela usava para ter à mão os comprimidos que a faziam dormir. Nunca liguei qualquer importância ao valor daquela caixinha e, no entanto, ela continha o passaporte para uma viagem, uma sem retorno. Nunca houvera pensado nisso, excepto naquela noite; uma noite em que ela não estava ali deitada comigo (nunca mais estaria); uma noite em que acabara de chegar de mais um bar e depois de ter ingerido um bom pedaço de álcool para me aquecer a alma tão fria e tão dormente que já nem a sentia. Também, para que queria eu uma alma? Que é que ela me dá ou me faz? A caixinha preta continuava ali. Quantos comprimidos teria ela deixado desde a última vez que a encheu depois de os tirar da embalagem de marca do medicamento? A minha mão direita estendeu-se para aquela caixinha preta tão apelativa como tão consoladora pelo imaginário que já me estava a provocar. Não custaria nada e dormiria para sempre; tão bom. Era disso que eu estava a precisar ou seria de mais um pouco de gin? Mas para tomar os comprimidos eu precisava de beber alguma coisa e essa coisa estava também ali à mão; debaixo da cama, talvez também deitada no chão por cima do tapete; teria ainda algum líquido? O suficiente para engolir os comprimidos? Já não tinha forças para me levantar e ir buscar outra garrafa. A caixinha preta continuava ali e a minha mão já estava em cima dela. Senti aquela textura (penso que era marfim) sob os meus trémulos dedos mas senti-a fria e um arrepio percorreu-me a coluna; ou teria sido outro tipo de arrepio? Não sei quanto tempo estive com aquela caixinha na mão. Não sei quanto tempo demorei a tomar uma decisão. Não sei quanto tempo a olhei com um turvo olhar. Não sei porque razão não a segurei. Dei por mim a olhar para ela sem saber para que é que ela servia e naquele momento apenas me apeteceu dormir; tão perto do derradeiro sono; tão desejado; ali tão à mão.
Reparei então que estava deitado sobre o lugar dela com o braço direito estendido para a mesinha de cabeceira segurando a caixinha preta que continha o passaporte para a derradeira viagem; tantas vezes assim estivemos; tantas vezes senti o seu calor, o seu respirar, o seu arfar; tantas vezes assim ficamos depois de fazermos amor. E, neste estúpido momento, repetia aquela posição estendendo a minha mão para uma viagem. Não consegui conter o choro; não consegui aguentar as lágrimas; não consegui segurar a caixinha preta. Não consegui partir. Restou-me a certeza que no dia seguinte teria mais uma noite de frio..."

7 comentários:

Anónimo disse...

betania comenta:
quim, a tal caixinha negra fez-me lembrar a caixa negra
dos aviões. Felizmente resististe à tentação e estás
aí, sempre em forma, escrevendo, dando testemunho de vida.
Viver é preciso!
Beijinhos
betania
http://betanices.blogs.sapo.pt

Aran disse...

E cá vim matar saudades... beijinhos [de Aran_aran]

Ana disse...

O mais difícil, por vezes, é largar a caixinha preta e esperar por mais uma noite de frio.
Ainda bem que o fizeste.
A tua "Viagem" poderá ser apenas imaginada, mas emocionou-me.
Um beijo, Quim.

Vera Cymbron disse...

Que se lixe a caixinha preta e os inerentes remorsos.
Vive meu amigo...que se lixe o resto!
Jinho

sofia disse...

olá quim, sim todos temos a nossa caixa preta, a minha caminha comigo, para onde eu for ela está comigo, só que com o tempo ela entrou no meu coração e deixou de ser preta para se transformar num arco iris, este muda de cor muitas vezes, mas estando dentro do meu coração já tem um lugar para estar, que me acompanha sempre e que me faz acreditas que a vida tem sentido.
bjs sofialisboa

antonio disse...

Viva!
Uma visitinha a esta casa para agradecer apoio(s) recebido(s).

Um abração do
Zecatelhado

Pecola disse...

o melhor de tudo é que no frio pensamos no calor que já sentimos.. :)